Por Roniewerton Fernandes, policial penal, 13/11/2025.
Ontem, ao acompanhar as redes sociais, assisti a um vídeo institucional da Brigada Militar enaltecendo o Dia do Veterano. Vi homens, uniformes antigos, viaturas antigas — enfim, um olhar respeitoso sobre o passado. Aquilo me fez refletir rapidamente: e nós, do Sistema Penitenciário do Estado do Rio Grande do Sul, temos uma história? Onde ela está?
A Polícia Penal do Rio Grande do Sul não começou hoje. Ela é fruto de uma longa trajetória institucional que remonta à Ilha Presídio, à antiga Casa de Correção da Volta do Gasômetro, aos tempos em que o termo “carcereiro” não era pejorativo, mas sinônimo de respeito e autoridade. A função que hoje chamamos de Policial Penal já foi exercida sob diversos nomes e atribuições — do Carcereiro, do Agente Penitenciário, do Monitor, do Técnico Superior Penitenciário, do Auxiliar de Serviços Penitenciários, dos Agentes Penitenciários Administrativos, dos servidores de outrora que enfrentaram motins com coragem e sem reconhecimento. É uma história de mais de 60 anos, construída com suor, sacrifício e honra — e que está sendo simplesmente esquecida.
A impressão que se tem é que muitos dos novos servidores acreditam que a Polícia Penal foi criada ontem, como se não houvesse um passado institucional que sustentasse o presente. Entram na carreira sem saber que houve motins históricos como o do Instituto de Biotipologia Criminal, em 1987; o motim no Presídio Central, em 1994, que marcou a ascensão da Falange Gaúcha; os motins e fugas de presos em Santa Cruz do Sul, Caxias do Sul (PICS) e Vacaria, em 2002 — e tantos outros episódios que deixaram marcas profundas na memória dos servidores. Motins em que a experiência dos veteranos foi decisiva para evitar tragédias maiores.
Ignoram que houve resgates como o ocorrido em 12 de setembro de 1985, que vitimou os agentes José Carlos dos Santos e Jorge Medeiros, executados durante o transporte do apenado conhecido como “Topo Gigio”, em um ônibus de linha entre Porto Alegre e Caxias do Sul. Ou o resgate de “Cafuringa”, que vitimou o agente Jair Fiorim em 16 de janeiro de 2005, deixando marcas em toda uma geração de servidores da Penitenciária Modulada de Montenegro. E ainda o ataque brutal em Caxias do Sul, em 2021, que tirou a vida do agente penitenciário Clóvis Antônio Roman, durante uma escolta médica.
Essa falta de conhecimento não é culpa dos novos servidores — é reflexo de um descaso institucional. Não há um centro de memória. Não há um museu. Não há sequer uma disciplina na formação que conte essa história riquíssima, que nos conduziu até este momento de transição institucional, em que o Agente Penitenciário dá lugar ao Policial Penal.
Onde está o reconhecimento por esse patrimônio histórico que sobreviveu a impérios, repúblicas, reformas e revoluções? O Presídio Estadual Feminino de Rio Pardo, fundado em 1811, é a unidade prisional mais antiga do Brasil ainda em funcionamento no mesmo local. Um verdadeiro monumento da história penal brasileira, que deveria ser reverenciado, estudado e preservado como símbolo da resistência institucional. E, no entanto, permanece invisível aos olhos da própria estrutura que o mantém — assim como outros símbolos materiais da nossa trajetória: o velho “Trovão Azul”, primeiro ônibus-cela do estado; as viaturas Kombi; as espingardas calibre 12 “mochas”; os revólveres .38 “canela seca”; as antigas placas de louça que identificavam a “Cadeia Pública” nas cidades do interior — tudo desaparecendo, sem registro, sem preservação.
Hoje, o servidor mais antigo é chamado de ultrapassado — às vezes, de “carcereiro”, como se fosse um insulto. Mas foi com esse nome que mantivemos a ordem quando não havia tecnologia, quando não havia sequer apoio. E agora, o que vemos? Jovens que ignoram os mais velhos, que zombam da experiência, que acham que tudo começou com eles.
E o Estado? O Estado nos esqueceu. Não há homenagens. Não há memória. Não há gratidão.
Mas eu me recuso a aceitar esse apagamento. Porque a história da SUSEPE é feita de nomes, de rostos, de vozes que negociaram com líderes de facções, que salvaram vidas, que impediram fugas, que protegeram colegas — e que mantiveram a dignidade da instituição.
A nova geração precisa entender: sem passado, não há futuro. Sem respeito, não há instituição. Sem memória, não há identidade.
Respeitem os veteranos. Ouçam suas histórias. Aprendam com suas cicatrizes. Porque um dia, vocês também serão os velhos. E só terão valor se tiverem legado.
E o legado não se constrói com tecnologia. Se constrói com honra, com respeito, com a cultura institucional das histórias do dia a dia que forjaram esta instituição — que hoje encontra-se na terceira idade, no auge da sua maturidade — e que clama por esse resgate neste momento histórico de mais uma transformação de suas atividades, que a aprimora e a projeta para o futuro.